dossiê: falas e falhas da universidade

“Os antropólogos contam tudo errado! Nós somos as autoras das nossas falas."

Entrevista com Nelly Duarte (Marubo) e Sandra Benites (Guarani)

Nelly Duarte: “Sou Marubo, nasci na aldeia Posto Indígena Curuçá, no vale do rio Javari, Amazonas. Surgi dos meus pais, Ranẽ Tupanë e Tamã Shëta. Cursei Bacharelado em Antropologia na Universidade Federal do Amazonas e hoje sou aluna do curso mestrado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. Moro em Icaraí – Niterói/RJ”.

Sandra Benites: “Nasci na aldeia Porto Lindo, no Mato Grosso do Sul, onde aprendi a ler e escrever. Já casada fui morar no Espírito Santo e cursei o Magistério Indígena na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje moro no Rio e, em março de 2016, começo o curso de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ”.

Nelly

Sou neta de João Tuxaua, liderança Marubo, considerado um ser especial entre seu povo. Desde que comecei a estudar, a família me cobrou muito para eu ocupar esse lugar de liderança. Quando ingressei na universidade para estudar antropologia, as mulheres da aldeia souberam disso me pediram ajuda.  A queixa principal das mulheres é a de que seus filhos e filhas não têm mais tempo para ouvi-las.  Para nós, a forma de educar as crianças é sentar com a filha e com o filho, conversar, chamar a atenção do pai para que haja uma conversa entre pai e filho, conversar com as avós e os avôs. Esse momento de ruptura de comunicação com os filhos está sendo um impacto. Isso vem do vício de entrar numa sociedade não-indígena. Os mais novos ficam focados na televisão, no celular, e nesse entra-e-sai da aldeia para a cidade para receber os benefícios do governo (Bolsa família, auxílio maternidade etc).

Ainda pequena, meu pai me mandou estudar na cidade com os padres. Para ele, bastava eu aprender a ler e escrever, depois me tornaria uma professora ou assistente de enfermagem na aldeia. Não estava previsto que eu entrasse na universidade. Sempre que eu voltava nas férias para a aldeia, tinha que contar tudo o que eu tinha feito na escola, relatar toda a minha experiência do ano. Até uma música que eu tinha ouvido na cidade, meu pai pedia para eu cantar na frente de todo mundo. Ele adorava me expor na frente das pessoas. Isso me frustrava e me envergonhava, mas ele queria que eu tivesse desde pequena um espírito de liderança (kakashavo, em língua Marubo). Ele queria que eu fosse uma liderança porque ele não teve filho homem. Como eu era quem estava aprendendo a situação de duas sociedades, para ele, eu seria uma porta-voz. Aí, comecei a sentir que na minha família não poderia viver normalmente, assim como na outra sociedade também não. Eu ficava me perguntando o tempo todo quem eu era. Depois, sai do convento e terminei meu ensino médio em Manaus. Dei um tempo sozinha, por uns dois anos. Queria me sentir sem pressão.

E o que você fez nesses dois anos?

Fiz curso de administração e trabalhei na empresa Panasonic, da Zona Franca, com japoneses. Me sentia tão livre...Ninguém me cobrava nada, era só eu, não falava quem eu era para ninguém. Aí recebi uma proposta para trabalhar em uma organização indígena. Quando cheguei, uma liderança queria que eu fosse dele. Para trabalhar lá, eu teria que ser dele. Foi um momento de crise: ao mesmo tempo eu queria entrar ali e fazer com que meus pais me vissem como liderança, mas também não queria ter de ficar com um homem de quem não gostava. Acabei me afastando de lá, e ele começou a falar mal de mim. Foi uma situação chata. Eu queria me afastar, mas ao mesmo tempo queria provar que era igual a ele, que não precisava virar mulher dele para ser importante. 

Aí, apareceu em Manaus um curso de Antropologia Aplicada, através do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) [1]. Teria gostado de fazer, mas aquela liderança tinha que me dar uma declaração. Resolvi pedir para ele, ele deu, mas logo depois fingiu que não sabia de nada, não pagou minha matrícula e ainda falou um monte de coisas absurdas para minha família.

Acabei ficando doente. Peguei tuberculose e fiquei 3 meses sem ver ninguém no hospital. Nesse tempo também perdi meus dois irmãos que morreram de hepatite delta [2]. Comprei casa na cidade e acolhi meus pais que estavam sem condições emocionais e mesmo materiais para viver porque os dois filhos tinham morrido (uma menina de 14 anos e uma menino de 10 anos). Eles entraram em depressão e virei mãe e pai dos meus próprios pais. Como eles não sabiam viver na cidade, acabei sendo aquela que resolvia tudo.

Aí comecei a trabalhar com os Maristas que davam palestras nas escolas e entrei na faculdade, em Benjamin Constant, na Universidade Federal do Amazonas. Escolhi estudar Antropologia. A antropologia me chamava a atenção porque queria conhecer a realidade do Outro, afinal nasci e cresci vendo antropólogos transitando ali, então afinal, “qual era a curiosidade que trazia um antropólogo ali, qual era o interesse dele em conhecer meu povo, e para quê isso ?” Já que os antropólogos estudam indígenas, eu queria estudar antropólogos.

Foi quando minha mãe teve a terceira recaída de câncer, aí tive que cuidar dela mesmo fazendo curso. Mas consegui finalizar. Nesses tempos, conheci as mulheres Marubo da aldeia Boa Vista, do Rio Ituí (AM). Elas trabalham com artesanato, e disseram que ninguém mais estava aprendendo sobre isso. Eu trabalhava na FUNAI de manhã e ia depois para o curso, um dia cheguei em casa à noite e as mulheres estavam lá. Queriam falar comigo. Me deu vontade de fugir. Pediram a minha ajuda : “Os antropólogos contam tudo errado ! Nós somos as autoras das nossas falas, e queremos que você conte do jeito que a gente contar para você. E que você coloque isso no papel”.  Esse pedido das mulheres foi mais forte. Tentei fugir porque essa cobrança era tão forte quanto as cobranças da minha família e as conversas eram sempre bem emotivas: “ estamos morrendo, já estamos acabando e você não pode fugir, seu avô foi responsável pelo povo, você tem que ter essa responsabilidade também”.

As mulheres querem ter voz através de você, que seus ensinamentos ganhem o mundo ...

A tradição sempre dá a voz ao homem. O homem tem que estar na reunião, tem que falar em pé, as mais velhas tentam ter voz, mas a mulher mais nova não tem esse momento. Ela acha que tudo o que ela vai falar, o txai vai rir ou alguém vai esnobar. Engraçado que segundo um dos meus parentes homem, as mulheres não prestam para dar informação, tem um machismo incorporado aí. Quando eu trouxe as mulheres para o Museu do Índio aqui, para a Oficina de Miçangas, ele disse: “Para quê que você leva as mulheres? Elas vão morrer no caminho, não vão aguentar”. Mas vejo que as mulheres Marubo querem contar. Claro que cada uma tem uma forma de contar história, não há uma história verdadeira, é sempre “a história que minha mãe me contou”, “a história que minha avó me contou”, mas para alguns homens, só a história deles é a verdadeira.

(Agora Sandra chegou e entrou na conversa).

Sandra, você nos disse que nos Guarani e Kaiowá as mulheres têm voz sim.

Elas têm voz, mas só se impõem quando ficam mais velhas. Quando muito novas, não conseguem ter voz, são muito quietas. Minha luta para ter voz foi longa; sou um pouco mal vista, dizem que peguei a cultura do branco porque falo muito. Quando novas só levantamos e falamos com apoio dos nossos pais, maridos, irmãos. É assim que a gente vai assumindo papel de liderança, nós nos acostumamos falando, alguns não concordam, mas a família é importante nessa construção de mulher, para pegar esse poder e caminhar nesse papel de liderança.

Na cultura Guarani é muito importante ter um primeiro filho homem, mas quando é uma menina, ela passar a ocupar esse lugar, faz trabalho de homem, sempre com apoio dos pais, dos irmãos, dos filhos. Foi o que aconteceu comigo. Nasci no Mato Grosso do Sul, e sou filha mais velha.

Aprendi a ler e escrever numa escola dos não-índios, onde eu era obrigada a ler e escrever na língua portuguesa. Minha avó era quem me passava todos os ensinamentos de como eu tinha que me comportar. Tudo do costume Guarani eu devo a ela. Minha avó falava sempre que a gente tem que falar, que não podemos ficar com medo. É o que me encoraja a não ter medo. E, quando eu tinha uns 10-11 anos, lembro que meu pai me levava para pescar, caçar, eu ia junto por ser a mais velha. Geralmente, as mulheres Guarani têm muito medo de sair, são dependentes dos homens. Sou diferente por conta do meu pai que sempre dizia: “não tenha medo de levantar e caminhar”.

Em 2000, já casada, fui para o Espírito Santo. Meu sonho era ser enfermeira e comecei a trabalhar como agente comunitária de saúde. Naquele tempo, algumas mulheres da aldeia não queriam ter mais filhos. Surgiu uma polêmica. Como eu era agente de saúde, elas confiavam em mim. Um dia, eu disse que não queria ter mais filhos, e lá não tinha mais remédio natural. Fui pedir para um médico da FUNASA (Fundação Nacional de Saúde) para que me desse um anticoncepcional. Ele se recusou e disse que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) proibia. Eu pensei, não tenho medo, vou até o fim, se eu tiver filho não vou poder continuar estudando porque já tenho quatro. Eu tinha uns 28 anos. Fui para a FUNAI, a chefe do posto era mulher também e perguntei : “por que a FUNAI proibiu as mulheres indígenas de tomar anticoncepcional?”. Eu disse que iria pedir remédio tradicional para a minha mãe e que queria resolver isso o mais rápido possível. Ela falou que era a comunidade que tinha proibido, não a FUNAI.  Aí, fui numa reunião e falei com a comunidade, com os caciques. O cacique me deu uma bronca e disse que qualquer coisa que desse errado na minha saúde eu teria que assumir. Andei nas casas e as mulheres falavam: “ah... você teve coragem de falar, eu também quero tomar isso!”. Falei com o médico e ele me deu a receita, e consegui o remédio depois. A mulherada foi pegando e tomando. Na verdade, foi uma luta, não foi fácil. Fui bastante criticada por isso. Agora isso foi liberado, até a esposa do cacique está tomando a pílula para evitar ter filhos!

Aí apareceu uma bolsa exclusiva para agentes indígenas de saúde, para formar técnicos de enfermagem, mas exigiam ensino fundamental completo. Decidi voltar a estudar, mesmo tendo um filho pequeno, de 2 anos, e terminei o ensino fundamental, o supletivo. A aldeia não exigiu nada, comecei a trabalhar grávida, carregava meu filho, quando eu estava terminando, em 2003, apareceu o magistério. Falei com o cacique, deixei minha vaga na saúde para outra pessoa, e fui fazer magistério. Terminei em 2010 e fui fazer a Licenciatura Intercultural em Santa Catarina. Passei na prova e foi bem legal. A grande maioria dos alunos eram homens. Muitas mulheres desistiram do curso, mas só duas Guarani desistiram. Eram 40 Guarani no total, das quais umas 15 eram mulheres. Ficaram 13 no final.

Como você chegou aqui para fazer mestrado ?

O desentendimento com meu marido me trouxe para cá. Hoje, sou meio que mal vista na comunidade, como se eu tivesse abandonado minha família para fazer o que eu quero. Mas estou tranquila comigo. Sempre volto lá, apesar de que meu ex-marido não aceita muito isso, mas falei para ele que vai ser pior para ele se ele não aceitar, porque não volto nunca mais. Minha avó sempre dizia: “os filhos que a gente cria, crescem e seguem outro rumo, depois ficamos sozinhas”. Temos que fazer o que queremos também, sentir que nossa missão foi cumprida. Já estou cumprindo a minha.

Nelly, como se sente de estar aqui estudando ?

Hoje, estou um pouco sem chão com a morte de minha mãe. Mesmo que meu pai tenha ficado com a responsabilidade de me contar as histórias, ele não tem muita paciência para explicar. Agora vou reaprender a viver com a ausência dela. Ela sempre dizia: “você vai ter que aceitar as histórias do jeito que elas são contadas. Não há história verdadeira. Seus tios dizem isso, mas ser o pajé, não significa ser o dono da história. Você tem que valorizar como se produz a situação, e qual é o vínculo da pessoa com a história e com o que está produzindo.”

Quase desisti do mestrado, mas antes de morrer minha mãe segurou na minha mão e disse: “Estou morrendo, mas você não vai desistir. Ficarei muito triste se você não continuar. Quero que você mostre para o seu pai que você não precisou ser homem para ser uma liderança.” Então eu vim, e é por ela que estou aqui.

Sandra, que mensagem você deixa para as jovens gerações de mulheres indígenas?

Hoje, as mulheres têm voz, mas elas precisam se impor sem medo. Aos poucos, os homens vão vendo e vão apoiando, eu tive essa oportunidade. Quando comecei a falar, começaram a olhar para mim e foram me dando respeito. Hoje, muitos jovens me pedem conselhos, inclusive meninos. As mulheres Guarani, de modo geral, precisam se impor muito para que os homens ouçam. Precisam tomar atitude e tomar a frente, perder o medo de caminhar, de estudar. Não podemos ficar quietas. Peçam conselho para as mais velhas, para as mais novas, e para os homens também. Temos que caminhar, temos que falar. Criem coragem, e falem!

[1] O Conselho Indigenista Missionário é um organismo vinculado à Confederação Nacional dos Bispos (CNBB) que atua em defesa dos povos indígenas e de seus direitos.
[2] A hepatite delta (HVD) é um vírus que depende da prévia incidência da hepatite B para infectar uma pessoa. A região amazônica do vale do rio Javari (AM) vem apresentando taxas de mortalidade altíssimas entre indígenas por contaminação por HVD.